Parentificação- Os filhos cuidadores
Todas as crianças nascem para crescer saudavelmente, desenvolverem-se, amarem e expressarem as suas necessidades. Os pais são os guardiões e cuidadores das crianças: devem cuidar das necessidades emocionais e físicas dos filhos, para que estas sejam satisfeitas. Contudo, por vezes, as necessidades da criança são sacrificadas para esta cuidar das necessidades de um ou de ambos os pais. A esta inversão de papéis chamamos de parentificação.

Parentificação pode ser definida como uma inversão de papéis entre pais e filhos. Como resultado, os filhos parentificados são forçados a assumir responsabilidades e comportamentos adultos antes de estarem prontos para fazê-lo. Alguns exemplos de parentificação são:
-Parentificação física: quando a criança assume tarefas práticas reais de trabalho físico, a fim de ajudar no lar, como limpar, cozinhar, ajudar os irmãos mais novos a estudar, cuidar de outras tarefas e responsabilidades práticas.
-Parentificação emocional: ocorre quando uma criança ou adolescente tem o papel de confidente/mediador de (ou entre) pais e/ou membros da família. Tenta acalmar, resolver, traduzir sentimentos ou evitar confrontos entre adultos. Nesta parentificação, a criança é uma fonte de constante apoio emocional, podendo se tornar conselheira dos pais e ouvir detalhes íntimos sobre preocupações adultas das quais não está preparada e nem desenvolvida emocionalmente para integrar e refletir.
-Parentificação ligada à doença: surge quando há doença física ou mental, dependências ou dificuldades graves no contexto familiar. A criança adapta-se à situação e assume funções de cuidado de um ou ambos os pais, muitas vezes de forma intensa e precoce.
-Parentificação ligada à quebra dos laços familiares: surge quando há ruturas de laços familiares, como o divórcio e a morte de um parente. A criança tem o papel de apoiar o parente divorciado e/ou enlutado. Esta parentificação também surge quando a família emigra e um, ou ambos os pais, sustenta a sua adaptação e bem-estar na criança.

Algum nível de responsabilidade pode ser saudável para o desenvolvimento das crianças. A criança desenvolve um sentido de responsabilidade ao executar determinadas tarefas domésticas, ao cuidar de um animal de estimação ou ao ajudar ocasionalmente a cuidar de irmãos mais novos.
Mas quando é que a parentificação se torna abuso?
A diferença está no grau, na frequência e no impacto. A parentificação torna-se problemática quando as necessidades emocionais e físicas da criança são consistentemente colocadas de lado e ela não tem espaço para simplesmente ser criança. A criança não tem espaço para brincar, refletir sobre assuntos esperados para a sua faixa etária, aprender, sonhar. A parentificação torna-se abuso quando as responsabilidades da criança sustentam o funcionamento da família.
Alguns sinais de um filho cuidador são: 1) preocupação excessiva com dinheiro/saúde/cuidado da casa e família, 2) preocupação excessiva sobre o bem-estar físico e/ou emocional dos pais, 3) dificuldade em se desvincular dos pais e em se emancipar quando adulto, 4) extremo perfeccionismo, 5) comorbilidades como depressão e ansiedade, 6) dificuldade em expressar as suas necessidades (e até suprimi-las!), 7) dificuldade em impôr limites.
Em adultos, estes indivíduos sentir-se-ão responsáveis pelas emoções e bem-estar dos outros, terão dificuldade em se impôr e lutar pela sua autonomia, construirão crenças de que são amados pelo que têm a oferecer ao outro ou pelo que sacrificam em prol do bem-estar do outro. Ainda, o adulto, outrora criança parentificada, poderá ter dificuldade em pedir ajuda quando necessita ou deixar-se ser cuidado pelos outros, em confiar e ficar excessivamente hipervigilante às emoções dos outros, bem como sentir culpa quando diz 'não'. Poderá também sentir que cresceu rápido demais e que lhe é difícil se desvincular da infância. É como se fosse adulto fisicamente mas psiquicamente ainda preso a idades precoces.
A criança parentificada desde muito cedo desenvolve um sentido de obrigação de ser cuidador, resultando em imensa culpa sempre que deixa de fazê-lo ou quando tenta satisfazer as suas próprias necessidades. Neste sentido, aprende a não expressar o seu desconforto e íntimo para se concentrar melhor nas suas muitas responsabilidades e para não perturbar o adulto fragilizado. Com estes atos de serviço, a criança fica na esperança de que finalmente receba amor, elogios, apreciação. Mas uma criança deveria receber amor e elogios por simplesmente ser ela mesma e por existir.
A parentificação compromete o desenvolvimento da criança.

Tendo em conta o impacto desenvolvimental da parentificação, ressalva-se a importância de acompanhamento psicológico para ajudar a criança/jovem a compreender as funções e os papéis familiares, associar as responsabilidades às figuras, bem como para explorar o que sente e trabalhar sentimentos de culpa. O acompanhamento psicológico desconstruirá crenças da criança/jovem sobre si mesmo, sobre reciprocidade numa relação e em como as suas necessidades também importam e merecem ser ouvidas. Mais do que assumir papéis que não lhe pertencem, cada criança tem direito a crescer com apoio, segurança e espaço para ser criança.
Reconhecer a parentificação é o primeiro passo para quebrar ciclos silenciosos e devolver à criança a possibilidade de viver relações mais equilibradas, onde cuidar do outro não implique deixar de cuidar de si.